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Uma mulher transgênero foi encontrada morta dentro do porta-malas de um carro, em um motel do Campeche, no Sul da Ilha de Santa Catarina. O caso ocorreu ainda no dia 6 de fevereiro, mas foi divulgado como homicídio "de um homem" na ocasião. Nesta sexta-feira (21), no entanto, a Polícia Civil esclareceu os fatos e informou se tratar de uma mulher trans.

Esse é o segundo caso do ano em Florianópolis que tem como vítima uma transexual e a segunda vez que a informação de gênero é omitida inicialmente pelas polícias.

A delegada Eliane Chaves relatou que a vítima morreu por asfixia e que um suspeito foi preso em flagrante por feminicídio. A delegada informou, ainda, que o suspeito seguia preso preventivamente até a noite desta sexta-feira. Em depoimento à Polícia Civil, o homem permaneceu em silêncio.

A Delegacia de Homicídios investiga o caso. O delegado Ênio Matos, responsável pela investigação, não quis comentar o caso. A Polícia Militar informou que não recebeu chamado através do 190 para atender o caso e disse, também, que o atendimento foi realizado diretamente pela Polícia Civil.

Procurada pela reportagem, a delegada Patrícia Zimmermann D'Ávila, coordenadora das Dpcamis no Estado, informou que os casos envolvendo transgêneros mulheres são tratados como feminicídio justamente por se considerar o gênero e não o sexo.

A delegada também procura mais informações junto à equipe de investigação do caso, para confirmar se o crime foi contabilizado dentro dos cinco feminicídios divulgados pela Secretaria de Estado de Segurança Pública de SC até o dia 20 de fevereiro.

Vítima foi tratada como homem em relatório da PM

O relatório da Polícia Militar divulgado no dia 7 de fevereiro, divulgou um crime de homicídio em Florianópolis, que tinha como vítima "um homem de 20 anos". A descrição da ocorrência informou que o atendimento havia sido realizado pela Polícia Militar, também responsável pela prisão do suspeito, um homem de 31 anos.

Comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Dhiogo Cidral disse, no entanto, que em momento algum uma das guarnições responsáveis pela região Sul da Ilha de SC foi até o local do crime, para o atendimento da ocorrência:

— A PM não foi acionada através do 190 para esta ocorrência. Nem há registros desse chamado no sistema. Apenas recebemos informações, através do sistema de segurança, de que teria ocorrido um homicídio na área do 4º Batalhão posteriormente. Essa ocorrência foi atendida diretamente pela Polícia Civil.

Em relação ao que foi divulgado em relatório, que diz no enunciado da ocorrência "Polícia Militar prende homem que tentava fugir após homicídio" o comandante esclareceu que foi um erro de digitação ou próprio descuido de quem é responsável pela divulgação dos fatos à imprensa e reiterou que na descrição do atendimento da ocorrência em momento algum a PM é citada.

A informação sobre quem registrou a ocorrência inicialmente não foi confirmada pela Polícia Civil. O Instituto Geral de Perícias (IGP) foi procurado para esclarecer como foi tratada a descrição da vítima em laudo pericial, mas a assessoria de imprensa do órgão não repassou nenhuma informação até o fechamento deste texto.

Segundo caso em menos de dois dias

Dois dias antes, outra mulher transexual havia sido assassinada após sofrer um ataque a facadas. O caso ocorreu no bairro Ingleses, no Norte da Ilha de SC. Isabelle Colstt tinha 27 anos. Os agressores fugiram de carro e ainda não foram localizados. Uma amiga dela, também transexual, ficou ferida gravemente no mesmo ataque e foi internada no hospital.

Na ocasião, tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar inicialmente omitiram a informação de que as vítimas eram mulheres transexuais e divulgaram o crime como um homicídio e uma tentativa de homicídio contra dois homens. A identidade de gênero foi omitida tanto pelo delegado Ênio Mattos, em entrevista ao NSC Total na manhã da quarta (5), quanto pelo boletim de ocorrência divulgado pela Polícia Militar à imprensa.

Jornal Diário Catarinense 22/02/2020