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Como recordista 'negociou' com a mente para correr 866 km em 7 dias em SC: 'não podia pensar no que tinha pela frente'
16/08/2026
(Foto: Reprodução) Brasileira de 55 anos bate recorde mundial de corrida em esteira em Florianópolis
Para bater o recorde mundial de corrida em esteira e percorrer 866,21 quilômetros ao longo de sete dias, Débora Simas, de 55 anos, precisou negociar com a cabeça o tempo todo.
Neste domingo (16), faz uma semana que a ultramaratonista completou o desafio em um shopping de Florianópolis. O objetivo era fazer 846 quilômetros durante o período, mas desbancou o recorde da atleta neozelandesa Emma Timmis com sobra.
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Como brasileira tenta quebrar recorde mundial de corrida em esteira
Ao g1, ela contou que precisou "diminuir o tamanho do desafio" dentro da cabeça para chegar ao resultado.
"Eu não podia acordar pensando que eu ainda tinha seis dias pela frente ou olhar para o painel e fazer a conta de tudo o que faltava. Precisava estar naquele quilômetro, naquela hora, naquele momento", resumiu.
🔎 Durante o desafio, a atleta contou com uma barraca montada atrás da esteira que serviu para os breves períodos de sono, higiene, atendimento médico e recuperação — tudo cronometrado. A alimentação e hidratação geralmente eram feitas enquanto ela permanecia em movimento.
Preparo físico, nutricional... e mental
Para encarar as 168 horas com os pés na esteira, no entanto, foi necessário mais do que preparação fisica e nutricial acompanhada por bons profissionais. Aprender a trabalhar a mente também foi parte importante no processo.
Ela contou que a experiência de duas décadas em provas de longa distância a ensinou que "uma decisão tomada no auge do cansaço não pode determinar o restante da prova." A atleta se tornou embaixadora do Antonietas, movimento da NSC que da luz e visibilidade às conquistas das mulheres catarinenses.
"Acho que essa foi uma das grandes batalhas desses sete dias: não carregar mentalmente todos os quilômetros ao mesmo tempo. Eu tinha um objetivo gigantesco, mas precisava conquistá-lo em pedaços muito pequenos. Mas, tinha sempre na minha cabeça um objetivo: chegar no km 860. Eu fui além, superei", contou.
O corpo mandou sinais de desconforto ao longo dos quilômetros — como pernas cansadas pela repetição, sono e dor. A ansiedade, a expectativa e a pressão também pesaram e a percepção do tempo, em certos momentos, chegou a ficar distorcida.
Nessas horas, segundo Débora, a cabeça tende a projetar o que ainda vem pela frente, e é preciso aprender a separar o desconforto daquele momento de um limite real.
"Em vez de pensar ‘como vou conseguir fazer tudo isso?’, eu procurava pensar ‘o que preciso fazer agora para continuar?’ Às vezes era correr mais um pouco. Em outras, me alimentar, descansar, respirar, mudar alguma estratégia e depois voltar", completou.
💡 Para completar a prova, Débora usou artimanhas mentais e se apegou em algumas percepções. Veja abaixo o que ela resumiu ao g1.
"Força mental não significa passar 168 horas sendo forte o tempo inteiro".
"Em uma prova dessa duração, o objetivo não é imaginar que o corpo vai permanecer igual durante 168 horas. Ele não vai".
"O desafio é perceber as mudanças rapidamente e tomar decisões para que um problema administrável não se transforme em algo que impeça você de continuar".
"Às vezes, a decisão mais inteligente para continuar avançando é reduzir, parar, tratar, recuperar e reorganizar a estratégia".
"Ultramaratona não é apenas resistência; é gestão. Você administra energia, alimentação, sono, dor, emoção e tempo".
Ultramaratonista Débora Simas quebrou recorde mundial
Divulgação
Estratégias mudaram ao longo do percurso
Nos treinos, a música costuma ser uma aliada importante para criar ritmo, companhia e até mudar o estado mental.
Mas, em uma prova de 168 horas, só isso não é o suficiente. "Você atravessa tantos estados físicos e emocionais que não existe uma única ferramenta capaz de acompanhar todos eles", disse.
"Durante o desafio, havia momentos em que o que eu precisava era de estímulo e outros em que precisava justamente diminuir os estímulos e me concentrar no meu corpo, na respiração e no que estava acontecendo ao meu redor".
Correr dentro de um shopping, de acordo com a atleta, trouxe outra característica particular para a prova: em momento algum ela estava isolada — havia sempre um movimento de pessoas, equipe, voluntários, conversas e torcida.
Tudo isso ajudou, ao mesmo tempo em que também demandou outras táticas de concentração.
"Para me ajudar nessa cadência, eu tinha meus treinadores e a minha coordenadora, a Magda, sempre me ajudando e me direcionando. Ali, eu precisava me concentrar na execução. Por exemplo, nas planilhas que estavam sempre coladas na esteira, a partir do terceiro, quarto dia, o Paulinho, meu treinador, passou a escrever em letras maiúsculas: não cantar, não dançar, não ficar acenando para o público. E ali ele estava me protegendo".
"Mas só estando ali pra saber o quanto esses pequenos atos me ajudavam. Eu sei que ele estava correto, um pequeno deslize e eu podia me desequilibrar, me machucar, mas existia um propósito maior", completou.
Na quarta-feira (5), a atleta teve uma câimbra forte e chegou perto de perder os sentidos. A equipe precisou intervir e o planejamento traçado para os dias seguintes foi revisto.
O médico Daniel de Souza Carvalho, que a acompanhou durante o desafio, comentou que aquele momento deixou ainda mais evidente o peso do componente mental em uma prova dessa dimensão.
"Em uma prova de sete dias, não basta ter condicionamento físico. A parte mental pesa muito e é preciso saber responder ao que acontece”, comentou.
Como foi a prova
A prova começou em 2 de agosto, um domingo, e terminou no dia 9, outro domingo.
O evento disponibilizou duas esteiras adicionais ao lado da atleta para quem quisesse apoiá-la. Para participar, a pessoa deveria doar 1 quilo de ração para cachorro ou gato para cada quilômetro corrido ou caminhado, com limite máximo de 5 km por participante.
Cerca de 110 profissionais participaram da operação, entre médicos, fisioterapeutas, enfermeira, nutricionista, treinador, técnicos, árbitros, profissionais de apoio e voluntários, em sistema de revezamento durante as 24 horas do dia.
Débora contava com uma barraca montada atrás da esteira para dormir
Reprodução
Atleta tentou o recorde pela segunda vez
Não é a primeira vez que a atleta tentou quebrar um recorde. Em 2019, também em Florianópolis, a ultramaratonista correu 800,61 quilômetros na esteira e quebrou o recorde sul-americano da modalidade.
Há 22 anos nas pistas, Débora começou a correr por acaso. Funcionária de uma lanchonete de academia na capital, ela participou de uma prova de 9 quilômetros e terminou no pódio. Desde então, ela acumulou quase 300 provas disputadas e pódios conquistados em 100% delas.
Ao longo da carreira, Débora tornou-se a primeira mulher a correr 1000 km no Brasil e a primeira a completar a Volta à Ilha em dupla feminina. Entre as conquistas também estão o tricampeonato e recorde da BR-135, além de participações em mundiais na Holanda e na Espanha.
Débora Simas quebrou o recorde mundial de corrida em esteira
Divulgação
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